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Desafios inesperados (Mais um!)

Há mais de 1 mês não apareço por aqui. Mais de 30 dias sem escrever, mas por um bom motivo, precisava de um tempo pra mim. Até do instagram eu saí. Queria -e precisava- de um tempo concentrada na minha vida real, no agora. Tive o privilégio de passar o mês com a minha família (que mora em outra cidade) na praia, acordando e dormindo juntos todos os dias. Eu nem lembrava o quanto isso me fazia falta. E foi por isso que resolvi curtir e estar 100% presente em cada momento, já que eu sabia o quão rápido passaria. E passou. Foi então que eu decidi me desconectar do meu celular, e funcionou. Eu realmente aproveitei muito, fora outros benefícios (que eu pretendo ainda fazer um texto sobre). Mas enfim, agora estou pronta, renovada. Então, voltando à minha historia, que é o porquê estou aqui nesse blog lindo. No último texto falei sobre auto estima pós AVC, que não foi fácil, mas eu reconquistei, e um pouco mais a cada dia. Agora vem a segunda parte mais marcante, essa gravidez inesperada.

Nossas férias em família! Primeiro ano novo da Maria Eduarda

Em agosto de 2017, ainda morando em São Paulo e afundada na fisioterapia lutando contra as sequelas do AVC, namorando há apenas 11 meses, mais um susto!! Uma surpresinha: GRÁVIDA!! Como?! Também não sei, pois eu tinha mirena (método contraceptivo super seguro), que no dia do parto fui descobrir que não estava mais no meu útero, e em lugar nenhum do meu corpo. Sim, simplesmente expeli. Mais uma vez, escolhida pra ser o 1%. Hoje eu amo ser essa minoria, mas não foi sempre assim. Não mesmo. No dia que eu descobri eu surtei. Foram horas de agonia e esperança na espera do exame de sangue, já que o de farmácia já tinha mostrado exatamente o que eu não queria ver: POSITIVO-3/4 semanas. E as 9 da noite saiu. Bom, não preciso nem falar, né… Choro. Choro. Choro. O pior foi as pessoas me ligando pra dar parabéns. A felicidade deles me incomodava. Eu inclusive me senti desrespeitada muitas vezes. SERÁ QUE EU PODIA TER MEU MOMENTO DE ASSIMILAR TUDO AQUILO? Pelo jeito não. Ninguém parecia me entender. Não foram dias felizes. Muito menos as primeiras horas. No fundo eu sabia que também ficaria feliz, só precisava de um tempo. Eu me sentia culpada,parecia uma obrigação estar feliz. Todos os planos por água a baixo. Viagens canceladas. Medo, dúvidas. Raiva, culpa. E de novo, aprender a lidar com uma situação inesperada, que não coube a mim decidir. Mais uma vez,  saber assumir responsabilidade por um acaso da vida. Passei por momentos ruins, quem me conhece sabe. Eram muitos palpites, muita gente sem noção. Eu estava assustada, tinha até de correr risco de vida, por conta das sequelas do AVC (que ainda não tinha completado 2 anos desde então). Meus primeiros meses de gravidez foram muito preocupantes e eu tomei todos os cuidados.

1 semana antes da Maria Eduarda nascer

Passei por dias difíceis. Fui muito forte, engoli muito sapo e vivi muita pressão. Me mantive forte, mas no colo da minha mãe desabava. Eu também queria ser cuidada um pouco, não só cuidar de tudo. Eu não aguentava mais todo mundo achar que tinha direito de se meter tanto na minha vida. Eu achei que não aguentaria toda aquela pressão que é virar mãe. Sem contar o medo de ter uma filha tão nova, tão inexperiente.E o mais difícil, preciso admitir, era o medo de não poder cuidar da minha filha como uma mãe “normal”. Eu chorava praticamente todos os dias escondida, imaginando quão difícil seria cuidar de um bebê com uma mão só. Eu não ia nem conseguir pegá-la no colo, as pessoas não confiariam em mim para cuidar dela, eu não conseguiria trocar fralda nem dobrar as roupinhas dela. Não poderia dar banho, e precisaria de alguém pra me ajudar 24 horas por dia. Como eu poderia ter meus momentos com a minha própria filha!? Eu só conseguia pensar no pior, o medo tomou conta de mim. Eu morria de medo, e me sentia incapaz. Só pedia à Deus que ele me desse forças pra superar a tristeza diante do que eu não conseguisse fazer, e rezava pra que eu fosse capaz de segurá-la no colo em segurança. Era tudo que eu queria, conseguir pegar minha filha no colo.

E adivinha, eu consigo!!!!!!!!! (Com muita gratidão)

Foi pouco tempo pra assimilar. Tudo muito rápido. Descobri a gravidez e já noivei, mudei de cidade, fui pra longe da minha família, com amigos que eu ainda mal conhecia. Mudei tudo. Tudo. De uma hora pra outra. Comecei uma vida nova, ao lado de um homem (que aliás, obrigada pela ajuda, meu amor!). Do nada tinha uma casa, que era minha. Eu que decidia tudo. Eu tinha que saber. Com 22 anos comandar uma casa e construir uma família. Do nada virar mãe, esposa e dona de uma casa. DETALHE, uma casa que precisava funcionar e estar pronta pra receber um bebê. Como cuida de uma casa!?? Será que vou dar conta? Do nada descobri que até vira manta e absorvente de peito existiam. Do nada assumi tantas responsabilidades. Sem contar as pessoas que não me davam credibilidade alguma e achavam que eu era uma criança incapaz. Eu sabia que podia dar conta de tudo. Tanto é que dei!!O tempo foi passando, e eu fui aceitando minha nova condição… Eu seria mãe. E não ia demorar. Não tinha o que fazer. Os 3 primeiros meses foram mais difíceis, além dos enjôos e indisposição, ainda não tinha entendido tudo tão bem. Mas toda aquela aflição foi se tornando alegria, eu realmente só precisava de um tempo pra mim. De repente, era impossível não se emocionar a cada evolução na ultrassom. E do nada eu estava comprometida a ser a melhor mãe que eu pudesse, e iria contra qualquer coisa  que fosse preciso pra educar minha filha do jeito que eu idealizei. E então de repente eu tinha vontade de cuidar daquele serzinho que só dependia de mim e cada vez mais entendia sobre fraldas, produtos de limpeza e cozinha. Troquei a raiva dos planos que precisaria abrir mão por amor por novos planos com que viriam. Cuidei da minha alimentação, da minha casa, fiz meditações e tentei não me estressar. Cantei e conversei com ela na barriga. Lutei pra impor minhas regras em relação à minha filha que estava por vir e precisaria de uma base, educação, exemplo e disciplina. Pensava muito no que faria bem pra ela e pra minha nova família. No final estava eu  fazendo enxoval animada pra aquela baby que viria. Montei o quartinho dela, e fiquei imaginando como ela seria. Tudo pra ela!! Aos poucos as coisas foram se ajeitando, como sempre. Basta ter paciência.

Eis que com 7 meses, já em fevereiro de 2018 tive minha 3ª crise epilética em casa, que obviamente deixou todo muito preocupado. Inclusive eu. (Já tive 3 crises devido ao AVC, uma por ano desde 2016, a última foi essa grávida- graças à Deus!). Como meus médicos eram todos em São Paulo, meu acompanhamento na gravidez também foi lá, onde eu faria o parto. Tudo por conta do AVC. Depois da crise, com todos muito preocupados, voltei pra lá na mesma semana. E lá eu ficaria até que a Maria Eduarda nascesse. E lá eu fiquei. Eu e minha mãe, e o Thiago aos finais de semana. Até que em um deles, ela nasceu, com 37 semanas e 6 dias, 2,390 kg e  44 cm.

25/03/2018. O momento mais emocionante da minha vida.

Foi na madrugada de sábado pra domingo, quase 6 horas da manhã. Não vou me prolongar aqui, já que pretendo fazer um texto só sobre o parto e amamentação. Os primeiros dias no hospital não foram tão bons. Eu chorava de dor nos pontos, e os melhores momentos eram quando não tinha ninguém no quarto. Sem mal conseguir levantar, amamentando o dia inteiro, sangrando e cansada, eu realmente não queria receber visitas.  Eu chorava por uma tristeza repentina, e com gente no meu quarto tinha que mentir que era dor nos pontos. Tempo sozinha com a minha filha? Se tive, não me lembro. Foram dias exaustivos. Eu fingia estar dormido pra não ter que conversar, e doía horrores para me mexer. Por que ninguém me contou que sairiam coágulos de sangue de dentro de mim? Mas tudo passa, e eu sabia disso. Então respirava fundo e chorava pra minha mãe quando precisava. Mas também teve coisa boa. Ainda no hospital, peguei ela no colo com uma facilidade incrível. Sem medo, com uma mão só, sem nem pensar. Simplesmente peguei, com a cabecinha na minha mão, ela cabia no meu antebraço. Foi realmente instinto materno. Incrível. Mas não pude deixar de notar alguns olhares apreensivos.

A semana em que ela nasceu

Mas nem tudo foi vitoria. No primeiro banho do bebê, a enfermeira chama os pais para um banho demonstração, que eu não consegui dar. E chorei. Ali mesmo, na frente daquela mulher que eu nunca tinha visto na vida. Ainda bem que tinha o Thiago pra me abraçar e dizer que ia ficar tudo bem. E ficou, lógico. A gente sempre sobrevive, como eu já disse tantas vezes.

Saindo do hospital as coisas já melhoraram, e ainda fiquei 1 semana em São Paulo. Me sentia muito melhor, e já achava graça do leite vazando do meu peito, mesmo que doesse. Voltando pra casa, foi tudo meio assustador. Aquilo realmente era verdade, estava acontecendo. Eu era mãe. Eu amamentava, e tinha um bebê dentro da minha casa que dependia de mim. E de repente eu estava pronta pra me doar à ela. Eu estava muito confiante. Sabia exatamente como eu queria criá-la e o que eu faria ou deixaria de fazer. E aquele amor, que na minha opinião não nasce pronto, foi se construindo… A nossa ligação foi aumentando, e aos poucos eu me familiarizei com aquele amor que tanto falavam. No parto nasce um filho e uma mãe, mas mesmo com toda emoção do momento, não nasce aquele amor imensurável. Esse amor se constrói, e nunca para de crescer. Em casa as coisas correram perfeitamente bem. Eu consegui amamentar, e não tive dores nem falta de leite. Já tinha aceitado o leite vazando e o sangue já não me incomodava tanto.

O inesquecível olhar de um bebê para sua mãe enquanto mama

Ainda não tinha confiança alguma pra ficar sozinha com ela, então tinha babás e família pra me ajudar o tempo todo. E na verdade demorei pra conquistar essa segurança. Ela estava totalmente saudável, graças ao meu leite. Isso era gratificante. Mágico! Em momento algum deixei minha vida de lado. Sempre me prometi que também cuidaria de mim, do meu marido, e da minha vida social. Eu cumpri essa promessa, e continuo cumprindo.

Ainda nas primeiras semanas dela, nós saímos e, claramente, nos divertimos muito!

Desde o começo estava muito decidida sobre tudo que eu queria pra ela. Além dos palpites irritantes, da invasão e do estresse de tanta coisa nova, tudo estava perfeito. Eu me superei como mãe, sentia que estava cumprindo minha missão.  E sabia que estava sendo motivo de orgulho. Desde as primeiras semanas de vida dela fui muito rígida. Cumpria os horários das mamadas e do sono, e não deixava que a pegassem no colo por qualquer coisinha. Usei rigorosamente a prática do livro “12 horas de sono com 12 semanas de vida”, que a fez dormir a noite toda antes dos 5 meses. Aliás, mães, fica a dica!! Tudo foi muito melhor do que eu esperava, e muitas vezes eu nem lembrava das coisas que não conseguia fazer… Em compensação, em outras,  eu chorava horrores e queria me esconder do mundo. Hoje já é tudo mais fácil, e cada vez melhor fica.

O tempo realmente voou, e hoje vejo quanto evoluí com essa pequena. Tornei cada conquista uma vitória. E foram tantas… A primeira fralda que eu troquei sozinha, cada vez que eu peguei ela no colo, a primeira vez que eu saí sozinha com ela de carro (e única, hehe). A primeira vez que eu abri e fechei o cinto da cadeirinha, e a primeira vez do carrinho, que são diferentes. O primeiro body que eu tirei, e o primeiro que eu coloquei. A primeira vez que eu fiquei sozinha com ela em casa, que até chorei de emoção. A vez que eu lavei ela pra lavar na pia, a primeira vez que eu levei ela na piscina, e cada aula de natação que eu pude fazer com ela. A primeira vez que eu preparei um bolinho pra ela totalmente sozinha, e até a primeira selfie que eu tirei com ela no colo. E todas essas conquistas passavam longe da minha imaginação na gravidez.

Além de conquistas que nada se relacionam às minhas sequelas, como ter força pra deixá-la chorar quando preciso, me esforçar 200% pra controlar a alimentação dela, vê-la sentar sozinha, comer (que é um dos meus maiores prazeres), bater palma e mergulhar comigo na piscina. Ver a primeira gargalhada, superar a primeira cólica e a primeira febre. Manter a calma quando ela berra de sono.  Sim, parece que alguém ta beliscando ela. Resistir à remédios mesmo que seja mais trabalhoso, e cancelar o dia inteiro pra cuidar dela. Além de superar os tombos que eu já dei nela por causa da minha mão, Esses momentos foram teriveis!!!!!!!!!

Aos 6 meses, quando ela começou a comer, eu tive os momentos mais alegres dos últimos tempos. Me sentia totalmente capaz, minha auto estima deu um salto! Finalmente eu me senti realmente apta a fazer algo por ela, a fazer algo com ela 100% sozinha. Me sentia a independência em pessoa!! Foi, com certeza, um momento marcante, onde poderia ser eu e ela sem perigo, sem irresponsabilidade. E ainda é.  Não preciso de ninguém, e isso me fortaleceu. Além de prezar muito pela saúde, o que também me faz ser totalmente dedicada à alimentação dela. Hoje, com 10 meses dela, só posso dizer obrigada! Deus me enviou uma criança calma, serena, linda. Hoje tenho certeza que tudo que passei foi por um motivo: Trazer ela ao mundo. Ela é simplesmente luz.

Ela é mais um momento de superação na minha vida, mais um motivo pra me orgulhar comigo mesma. A gente tem que se amar né, se não quem vai? Eu sei o quanto foi difícil aceitar mais esse desafio, mas fiz dele o melhor e mais importante desafio da minha vida!! É meu prazer cuidar dela, e eu passaria por tudo de novo se necessário só pra ter essa pequena nos meus braços!!! E por ela eu cuido com uma mão, com a boca, com o que quer que seja…. Por filho a gente não mede esforços, certo mães!?  Esse foi outro susto inesperado que me fortaleceu e me fez vencer. Aliás, me faz todos os dias. Com a bagagem do AVC mais a maternidade eu sou, definitivamente, a melhor versão de mim mesma até hoje.  E agora sei  o porquê disso tudo: Chegar até aqui e receber esse presente de Deus.

Minha filha, você vai ter muito orgulho da mamãe!!

Com muito amor pelos meus desafios inesperados,

Nicole Freire.

PS: Muitas fotos são da Gabriela Gouvea (@gabigouveafotografia)

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