histórias reais, vida real

Você sequer se ama?

Cá estou eu sentada na frente do computador, sem saber muito por onde começar. Ou sequer o que escrever. Eu me imagino conversando com um grupo de amigas quando estou escrevendo. Acho que por isso as coisas saem tão verdadeiras, a escrita simplesmente flui e eu  consigo transmitir meus sentimentos. Eu nunca pré defino o que escrever, apesar de tentar seguir uma “ordem” do que aconteceu na minha vida. Pode ser que eu não mude nada na sua vida com a minha escrita, mas uma coisa você pode ter certeza: Cada segundo da sua leitura veio do fundo do meu coração. Eu realmente dou tudo de mim para escrever. E faço com amor, porque acredito que possa acrescentar algo à vida de quem le.

Então ta, vou falar de auto estima.  Você sequer se ama? Porque depois de aprender a ser grata, foi a segundo fator que me fortaleceu e me ajuda até hoje a superar meu AVC. Você pode imaginar que lidar com auto estima não seja fácil quando uma menina de apenas 20 anos se vê inteiramente debilitada. Eu era extremamente nova (ainda sou, só tenho 23), costumava sair muito com as minhas amigas, adorava me arrumar, acho que eu me sentia bem bonita. Hoje sou uma versão muito melhor de mim mesma (externa e internamente), mas isso não cabe aqui. (Mas ta aí uma ideia de texto, né?). Do dia pra noite, não conseguia mais passar chapinha (eu amava). Baby liss  até hoje esqueça. Secar o cabelo era meio estranho, difícil.  Hoje faço praticamente uma escova sozinha. Precisei por um bom tempo da ajuda dos meus pais pra simplesmente ir ao banheiro fazer xixi, não conseguia mais tomar banho direito,  minha boca estava torta, eu mal conseguia andar, colocar um salto sem virar o pé ou andar igual uma pata era impossível. Meu braço não mexia nem 1 centímetro se quer, e depois ficou  tão tenso que parecia que eu tinha quebrado. As pessoas perguntavam o que eu tinha no braço. Eu queria me afundar num buraco. Eu via as meninas se arrumando, prendendo e soltando o cabelo com tanta facilidade, dançando em movimentos tão harmônicos com seus corpos, tudo que elas faziam parecia tão fácil. E era, obvio, porque o corpo delas respondia aos comandos dos seus cérebros.  Me batia uma saudade surreal do meu “velho corpo”, que também respondia. E  raiva, por ter perdido. A saudade continua, a raiva eu mandei embora. Eu via meninas lindas reclamando de coisas tão bobas.  Só gostaria que elas valorizassem o que elas tinham de maravilhoso naqueles corpos que funcionavam perfeitamente.  Na verdade ainda vejo, garanto que você também. Até porque as vezes sou uma delas. Mas lá atrás  eu não queria tirar fotos, tinha vergonha que me vissem naquele estado,  não podia dirigir (hoje já dirijo, o que me trouxe uma super independência). Todos os dias aparecia um novo desafio que  me fazia travar. E agora, como faz? Antes era automático. Mexer no celular, escrever no computador, abrir uma garrafa… Eu  sentia que todo mundo estava me vendo quando eu chegava em um daqueles filtros de água e desistia quando percebia que uma mão segura o copo enquanto a outra liga. (Isso realmente acontecia).  Enfim, eram coisas que acabavam com a minha auto estima. Eu me sentia um lixo. Consequentemente, meus relacionamentos eram péssimos, a vida estava passando e eu ali, reclamando e me vitimizando.  Hoje na maior parte do tempo eu me vejo linda, simplesmente  porque foco no que  acho bonito em mim, me coloco pra cima. Se eu não gostar de mim, quem vai?   A beleza não vem só de me olhar no espelho e me achar bonita, é além disso. A beleza vem da felicidade,  vem de estar de bem com a vida.  Vem de acordar sorrindo porque está viva. Vem de abrir a boca pra compartilhar experiências, pra falar coisa boa, que muda o dia do outro. Vem de olhar mais as qualidades do que os defeitos. Bom, que seja… Naquela época eu nem conseguia deixar meu cabelo bonito sozinha, e não suportava mais pedir ajuda. Eu babava qualquer comida ou líquido que eu ingeria. Me maquiar era difícil. Eu não podia colocar uma roupa sequer sozinha. Eu sentia uns olhares de pena pra mim. Me sentia feia, desmotivada, debilitada. Me parecia que aquele corpo não era meu. Obviamente estava acabada, me sentia péssima, me joguei na comida por 1 mês. Consequentemente engordei e gostei menos ainda da minha aparência. Que diferença fazia, eu estava péssima mesmo. Era exatamente  como eu pensava. Já desejei estar morta ao passar por aquilo tudo.

Foi então que eu mudei pra São Paulo e fui submetida à sessões diárias de fisioterapia no centro de reabilitação do Einstein. De certa forma aquilo me deu um clique. Vi tanta coisa triste. Vi tanta gente debilitada. Aquilo sim era estar debilitado de verdade. Eu estava perfeita! Eu não precisava ser vítima de mim mesma. Eu poderia estar  mil vezes pior.  Meu pai ia comigo todos os dias durante o primeiro mês, e ele me dizia pra agradecer por tais coisas tão serias não terem sido comigo. Na verdade ele sempre disse que temos que agradecer pela nossa vida, eu só não entendia sobre a vida o suficiente para praticar.  Eu passei muito tempo com medo  logo depois que tive o derrame. Medo de ter de novo, medo de passar mal, medo de sair sozinha, medo de tudo.  Fiquei de certa forma paralisada. Eram mini ataques de pânico uma vez ou outra. Mas eu sabia que eu podia controlar aquilo, porque já tive um ataque de pânico sério há alguns anos. Mas nem quero lembrar agora. A questão é que eu sabia que podia mudar  aquilo, e precisava mudar antes que fugisse do meu controle. E controlei. Foi tudo na minha cabeça, eu comigo mesma. As coisas foram melhorando, fui aprendendo a lidar melhor com aquele corpo,  com aquelas limitações, com a minha própria cabeça… Escolhi ser forte. Afinal, eu não tinha outra escolha. Resolvi encarar a situação, e aí as coisas começaram a melhorar.   Resolvi me olhar no espelho e afirmar o quanto eu era guerreira e linda com meus defeitos. Voltei a fazer exercício aos poucos. Comecei a me alimentar melhor, voltei a me conectar comigo mesma. Voltei a ler livros que me interessavam. Voltei a prezar pelo meu sono. Ouvi mais o meu corpo, meditei, comece a cuidar de mim.  Encarei a fisioterapia com os melhores intenções (mas admito, era MUITO chato). Além disso, era cansativo e difícil. Mais que isso, era exaustivo! Demandava uma força surreal  que eu nem sabia da onde tirar. Você pode imaginar como é dar um comando para seu corpo e ele simplesmente não responder?  Não ter controle do seu próprio corpo? Até acostumar, é desesperador. Mas foi  aí que minha auto estima começou a melhorar…. (Mas calma, estamos falando de mais ou menos 1 ano depois do AVC. Foi um processo. Ainda é.) Eu arrumava meu cabelo no salão quando estava com o meu pai,  pedia pra minha mãe arrumar quando estava com ela. Detalhe, arrumar é só deixar apresentável, tá? Nada demais! Tipo secar com uma escova. Tomei coragem pra ir no salão e dizer o que acontecia com a minha mão, e encarei aquele momento constrangedor que a manicure não conseguiu fazer muito bem. Mas depois já acostumou também. Dei uma emagrecida, e já me senti melhor. Aos poucos voltei a confiar em mim mesma. Foi isso que me mudou. Porque sabe o que? No fundo não foi meu cabelo, os kgs a menos, a roupa nova… E sim colocar na minha cabeça que eu era capaz de sair daquela situação e que eu IRIA sim sair, independente do que me dissessem. Bastava eu querer.  (Detalhe, já me disseram que eu não voltaria a andar. Cá estou eu, andando, correndo, usando salto…)E aí até  os relacionamentos começaram a melhorar. Inclusive apareceu uma pessoa na minha vida, do nada, a qual eu não tinha pretensão alguma e hoje é o amor da minha vida, além de pai da minha filha. Eu não procurei por isso, minha vida simplesmente fluiu e o trouxe pra mim.  Só então eu pude ver o lado bonito da minha vida e de mim mesma.  Pude olhar aquelas pessoas no hospital e ter compaixão, mas também agradecer. Eu sabia o quanto eu tinha pra ensinar e acrescentar na vida do próximo, porque eu estava passando por uma experiência única. E escolhi fazer disso minha maior beleza. Que ainda acredito ser. Escolhi tirar o melhor dela. Desde a primeira semana disse aos meus amigos que faria algum projeto em relação à isso. Só não sabia quando, nem como.

Acho que o ponto principal disso tudo é que hoje,  apesar da minha perna ter voltado a mexer,  do meu braço ter melhorado, o fato de eu não conseguir fazer tudo que demanda duas mãos  não mudou. A questão é que eu aprendi a lutar com o que  tenho, e  assim consegui melhorar , mesmo que não  100% . Se não consigo amarrar um cadarço, enfio pra dentro do tênis. Se não consigo cortar uma carne e estou sozinha, como peixe, ou como com a mão. Brincadeira. (Se bem que eu já fiz isso em casa).  Enfim, faço o que posso do jeito que da. Inclusive, um dia gostaria de mostrar minhas “adaptações”. E quando realmente não dá,  peço ajuda. Ou deixo pra lá. E assim consegui mudar minha cabeça. Hoje é leve. Continuo sem ser a barbie perfeita maravilhosa, mas sou tão feliz com a minha vida que olho no espelho e amo o que eu vejo, até porque eu me lembro onde já estive. Ainda vejo mulheres mexendo nos seus cabelos perfeitamente, mas ao invés de raiva sinto compaixão, porque sei que elas também tem dores, problemas e inseguranças. Assim como eu, que até hoje  não gosto muito de como meu braço é, que não consigo andar com determinados saltos, que já deixei de sair com  tal roupa porque estava sozinha em casa, assim como já dormi de roupa pelo mesmo motivo. Mas hoje quando algo desse tipo acontece, eu dou risada ao invés de chorar. O que não significa que eu não sofra mais com isso, só escolhi  fazer disso um problema menor. Faço ele parecer tão pequeno, quando lembro que eu poderia ter morrido, e minha filha não estaria no mundo.

Resumindo, depois de  passar por tudo isso, hoje eu me amo. Eu me respeito, eu me cerco de pessoas que me fazem bem, eu me olho no espelho feliz, eu vejo uma guerreira em mim, eu amo quem eu me tornei e me torno todos os dias. E não me preocupo porque sei que quem me ama também ama o que ve em mim. E a auto estima começa por aí.  Mude a perspectiva do seu olhar. Em uma foto sua, por exemplo, você pode escolher prestar atenção nos seus defeitos ou não. A  foto é a mesma,  mas você pode enxergá-la de maneiras totalmente diferentes.  Procure olhar quão linda é a historia por trás daquela foto, ao invés de uma gordura. Procure lembrar os  motivos que esse dia te deu pra sorrir, ao invés de achar que seu rosto não está tão fino quanto da modelo que você vê diariamente no instagram. Eu te garanto, você pode mudar sua vida inteira a partir do momento que mudar a maneira como vê as coisas. Minha mãe me falou isso a vida inteira, mas eu escolhi aprender na marra. Mas aprendi. Então se ame, ame a vida, e tudo flui!

Com amor e compaixão, por você e por mim,

Nicole Freire

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4 comentários em “Você sequer se ama?”

  1. Nicole minha querida amiga, parei agora pra ler o seu texto de uma história que eu conheço bem. Que lindo ver você compartilhar tão generosamente uma parte da sua vida, incentivando as pessoas a se amarem, se respeitarem, se fortalecerem. A beleza da vida é superar tudo com amor. Seu texto é lindo, tuas palavras tocam o meu coração e sua história é emocionante. Você sempre foi maravilhosa por fora e está cada dia mais linda, mas a sua alma me encanta ainda mais! Que Deus te abençoe sempre e que a cada desafio você seja mais forte, mais generosa e mais feliz!
    Que essa história possa ser compartilhada com muitas pessoas e que elas se inspirem a desenvolver o amor e o respeito por suas jornadas.
    Um beijo no coração e gratidão.
    Tatianne Rodrigues

  2. Boa noite, tudo bem?
    Que barra hein! Mas temos que ser fortes e aprender a olha a vida com olhos positivos.
    Mas o que te levou a ter um AVC tão nova?
    Muitas bênçãos!

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