histórias reais, vida real

Gratidão, um clichê necessário

Final de ano chegando, correria. Todo mundo louco. Inclusive eu.  As emoções vem à tona. pelo menos as minhas. As suas não?  Talvez por conta disso, esse texto vai sair um pouco do planejamento dos meus textos. Ele não é SOBRE minha história, mas basicamente o que eu aprendi com ela.  Se você não me conhece, meu nome é Nicole. Eu tive um derrame com 20 anos, que me deixou com uma sequela física, eu não mexo uma das mãos, e  não muito bem  um dos  braços.

Esse final de ano me traz muita introspecção. Olhar pra mim mesma. Refletir, repensar. Quero compartilhar esses pensamentos. É impressão minha ou todo mundo vive na correria?  A vida passa muito rápido. Ouso dizer que a gente perde muito dela por besteira, por coisa pequena.  Deixamos muita coisa passar.  Fazemos muita coisa com muita pressa. É como se nem estivéssemos ali. 15 minutos por dia pra meditar é muito, 1 hora fuçando a vida alheia no instagram não é o suficiente. A gente se importa muito com tão pouco. Nos descabelamos por quem não merece, perdemos energias desnecessárias.  Deixamos pessoas e coisas tão insignificantes nos tirarem do sério. Ninguem pode tirar nossa própria paz, isso ta errado. Continuamos depositando nossa alegria no próximo. Muita expectativa. Desse jeito é difícil ter retorno. Nossa felicidade só depende de nós mesmos. Só que a gente já sabe disso.  E continuamos errando.  Continuamos fazendo de pequenos problemas grandes tempestades.  Tempestade mesmo é perder um filho, não ter o que comer, onde morar, se contentar com resto de comida, resto de agasalho no frio (ou até MORRER de frio), morrer na fila de um hospital,  não ter família, não ter as minimas condições básicas que um ser humano precisa pra viver. Tem muita tragedia por aí. Tragedia mesmo. Que eu, graças a Deus nunca passei.  Você já?  Só que a vida me ensinou a agradecer por isso. Ah, meus pais também. Hoje sei que sempre tem  alguém com um problema maior. To reclamando ? Tem alguém por aí sofrendo bem mais. Tem gente com bem menos agradecendo mais. E isso me faz repensar. Criança pedindo dinheiro na rua com sorriso no rosto. Quantos problemas essa criança não tem? Quantas preocupações? Qual a chance de um futuro digno?  Nem preciso citar mais exemplos, esse  é um que me marca. Com certeza você tem os seus. Esses dias um menino veio me pedir dinheiro no sinal. Na verdade já faz tempo.  Ele sorria tanto, e me falou uma frase em inglês (nem lembro o que). Ele disse que eu ficava muito bonita sorrindo.  Aquilo me marcou. Nunca esqueço. Ele sorria de orelha a orelha, e eu posso imaginar quanta preocupação aquele menino tem quando deita a cabeça no travesseiro. Ou será que ele nem tem travesseiro?  Detalhe, eu nem dei nada pra ele. Eu realmente não tinha.  Hoje quando reclamo de alguma coisa boba logo me corrijo. Uma hora vai virar automático, vou parar de reclamar. Eu espero! Porque repara, pensando bem, geralmente  nossas reclamações são bobas. Será que virou um hábito do ser humano?! Tá errado!! O  certo é nos bastar ter o necessário para viver. Da  pra ser feliz com  tão pouco…. Mas acho que a gente sempre quer mais.  To enganada?   Hoje sei que tenho tudo. Tenho até mais. Tenho consciência disso. Mas também dou valor a cada coisinha,  material ou não.  Mas também já fui muito egoísta. Já deixei de dar valor pra muita coisa  importante. Na época parecia  tão pouco . Hoje eu sei o quanto vale.  Por isso eu digo, a  gratidão é necessária.  Precisa  fazer parte da nossa vida. E ela é um hábito. Ninguém nasce grato, mas a gente aprende. E quando se habitua, a vida muda tanto…  muito problema desaparece, choro vira sorriso, estresse vira brincadeira…   A  vida ganha uma certa leveza.

Quando chega esse final de ano, eu começo a repensar muito. Eu já disse isso, né? E sabe o que?  Pela primeira vez em muito tempo tenho muito mais à agradecer  do que a  reclamar.  Não porque hoje eu tenho muito mais  que antes, eu sempre vivi muito bem.  Mas porque  hoje potencializo as coisas boas. Deixo as ruins de lado, deixo-as  passar, e elas vão perdendo o valor… claro que tem coisas ruins na minha vida.  Várias delas! Agora, uma das coisas mais bonitas que eu posso te dizer sobre mim mesma é que se eu pudesse mudar o passado, eu estaria exatamente aqui, do jeito que eu sou e estou. E quando eu disse isso pela primeira vez, eu mudei meu problema pra sempre. Porque isso  é agradecer por  um problema tão sério. Faz sentido?  Se eu não gostaria dos meus movimentos de volta? Mexer o braço e a mão normal de novo?  Claro que sim, não vou ser hipócrita. Mas não trocaria pelo que eu tenho agora. Porque só passando pelo qiue passei minha vida tomou esse rumo, que me trouxe até aqui, pra um  lugar e uma posição que me fazem tão feliz. E isso me tornou forte. Mais forte.  E é  por isso que hoje (e eu demorei pra chegar até aqui) eu penso mais “Se eu pudesse fazer tal coisa sozinha eu provavelmente não estaria aqui” do que “queria fazer tal coisa sozinha”. A Situação é a mesma de 3 anos atrás, quando todo esse sofrimento/aprendizado do  AVC começou. Nada mudou. Só a forma como eu vejo a situação. Já pensou nisso? “Se você não pode mudar a situação, mude a perspectiva do seu olhar”. Minha madrasta (que não é má) me mandou essa frase quando eu  saí do hospital. Nunca me  esqueço.

Sabe outra coisa que eu aprendi? Uma coisa muito linda! Muito gratificante de  ter descoberto.  Que todo mundo, TODO MUNDO, tem uma luta diária que a gente não tem ideia. Já pensou nisso? Eu nunca tinha pensado, por muitos anos.  Pare pra conversar um pouco a fundo com as pessoas que tiver oportunidade. É tão legal. É emocionante. Surpreendente. Todo mundo tem seus medos, suas inseguranças e  barreiras.  As vezes, na maioria delas, as pessoas  são muito além do que elas aparentam, e do  que a gente sabe delas. E é muito legal fazer essa descoberta. Acho que até nos aproxima mais. Tenho uma historia pessoal.  Conheci muita gente nova nesses últimos tempos. Gente nova mesmo. De outra turma, outra idade, outra cidade, as quais eu não sabia absolutamente nada a respeito. Aos poucos descobrindo a historia de cada um… eu jamais poderia imaginar.  Cada um com um problema diferente. Uns mais sérios outros menos…. uns irreversíveis, outros passageiros. Mas todo mundo ali. Feliz, dando risada, pronto pra ajudar e acolher. Gente que reclama muito é chato, né? As vezes eu reclamo muito. Mas quase nunca. Eu sou legal, juro.  O meu marido também é um exemplo bom. Ele me ensina muito. Eu me espelho nele. Bom, afinal o que é o casamento né?!  Ele não reclama!!! Um milhão de defeitos, sim, como todos nós, mas ele reclama tão pouco. É invejável.  Se ele tem pouco problema? Pergunta pra um empresário quantos pepinos ele tem  por dia!  Cada um tem os seus. Ninguém é imune. Mas eu juro, não há nada que um sorriso não resolva.  Só não da jeito pra morte.

Hoje eu sou suspeita. Acordei tão feliz pra terminar esse texto. Ta tudo certo na minha vida. Mas podia estar tudo errado. Ta tudo na nossa cabeça. Acordei feliz porque estou perto da minha família,  tenho amigos, acordei com saúde. Aliás, acordei!! Esse já é o primeiro ponto pra agradecer.  Tenho minha filha e marido  por perto, to feliz!! Mas poderia ter acordado de mau humor. Porque meus problemas continuam aqui. Eu só não estou dando bola pra eles.  Então, se você chegou até aqui, eu te digo uma coisa: Seja feliz! Provavelmente você tem suas duas pernas e braços, você tem família, comida, onde morar e o que vestir. É tão pouco, mas é muito, sabia?  Costumo dizer para as mães: Não reclame de trocar fraldas. Eu gostaria muito de poder troca-las sem a menor dificuldade.  Você já pensou como seria sua vida sem duas mãos? Porque hoje eu vivo me colocando no lugar dos outros, e minha maior gratidão é ter conseguido voltar o movimento da minha perna, que  há 3 anos estava completamente paralisada. Enfim, não deixe  nada nem ninguém te limitar. Você pode ser e fazer o que quiser, acredite.   Sorria pra enfrentar a vida. Tente conhecer mais as pessoas a sua volta, elas também sofrem.  Agradeça, e seja feliz!

O texto terminava aqui. Eis que morre o irmão da minha babá. Ela, chorando,  me diz que eles não se falavam há 1 ano, que na correria do dia-a-dia (ta vendo ela aí de novo? a  maldita correria) ela foi deixando passar. Acontece que agora não deu mais tempo. Ele se foi.  E aí chega outra funcionária, e pra consolá-la conta que  já perdeu um filho. Que se afundou no álcool, e morreu nas ruas. Ela foi saber que ele morreu 10 dias depois, ele quase foi enterrado como indigente. Da pra imaginar!? Nem ela sabe da onde tirou forças pra seguir. Ela, uma pessoa simples, sem luxo. Mas feliz, batalhadora, sabe viver com pouco e agradecer. E a  babá, que está aqui trabalhando, sorrindo. Mesmo sabendo que acabou de perder o próprio irmão. Então é isso. Precisava contar.  Foi um momento muito intenso. Eu simplesmente corri dar um beijo na minha filha. E meu coração está apertado. Até me arrepia.  Pelo que você vai agradecer hoje?

Um beijo, com muita gratidão por você ter lido até aqui,

Nicole Freire.

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8 comentários em “Gratidão, um clichê necessário”

  1. Amei seu texto parabéns ótimas palavras, acho q todos deveriam ler e repensar sobre suas vidas 😍👏🏻👏🏻 Parabéns Nicole

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